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Canto do Inácio

Dom | 06.03.22

amor e medo em Frozen

Tiago Inácio

Qual é a época em que se passa as aventuras de Frozen?

O Frozen é genuinamente um filme bastante bom que deve ser visto por qualquer pessoa quer seja uma criança ou um idoso. Tenho de admitir que antes de sequer o começar a ver estava bastante resistente e teimoso, é um filme animado da Disney e o seu público-alvo claramente que não sou eu. No entanto, recomendo bastante a sua visualização atenta e focada, tanto que pessoalmente me comoveu por mais absurdo que pareça. O próprio filme tem muito que se lhe diga, neste pequeno texto vou tentar referir por alto as perspetivas e questões que me interessaram. Não pretendo fazer toda uma análise teórica e profunda do Frozen como se estivesse a escrever um ensaio, estou só mesmo a comentar um filme que gostei que levanta perspetivas. Preciso também de dizer que considerando que é um filme para crianças, toca em muitos assuntos que provavelmente só alguém com muitos anos de vida compreenderia (nem eu me sinto capaz de entender as questões que todo o filme implica).

A meu ver existem dois ângulos por onde se pode seguir com este filme: o primeiro sendo o que se relaciona com o medo, ansiedade e coragem; e o segundo que se relaciona com o coração e o amor. O medo desde o início é um tema fracturante e constituinte do ambiente que se desenvolve ao longo do filme quase até ao seu fim onde tudo se resolve com o amor. É claro que o amor não é algo que surge espontaneamente, é claramente algo que fermentou e vagueou pelas consciências das personagens e se expremiu conclusivamente no final feliz, da paz e sossego. Primeiramente, e de maneira óbvia, a decisão dos Pais da Elsa em isolar as duas filhas reflete o que me parece ser ansiedade do destino. Não quero discutir se existe ou não livre arbítrio ou destino, parece-me um tema comprometido logo à partida. O que pretendo relevar é a profecia/previsão feita pelo Rei Troll do que poderia ser o futuro da Elsa caso não fosse escolhido o caminho "adequado" para a sua infância e o efeito que esta previsão teve nos pais da mesma que levou ao isolamento. O fecho dos portões e a separação das irmãs reviu-se ultimamente na incapacidade de enfrentar os seus medos, sentimento este que tardiamente realizou as premonições feitas pelo Troll. Este preenchimento da "profecia" relembra-me do mito do Rei Édipo, onde Laio depois de consultar um oráculo, descobre que o seu filho está destinado a matá-lo e com este conhecimento faz de tudo para escapar a isto e tenta livrar-se desta ameaça. No entanto falhou miseravelmente. O ponto é precisamente que o que deveria ser a valorização de um talento mágico como o da Elsa não poderia passar pela solidão e isolamento, este modo de vida restrito só constituiu o talento enquanto maldição, isto é, o que provavelmente poderia ser usado para o bem geral do Reino, com a repressão deste tornou-se assim no seu oposto: no inverno eterno do reino e na prisão solitária da Elsa.

A outra vertente parece-me ser o aspeto do amor e da amizade. Já para o final do filme e com o seu desenrolar começa-nos a ser transmitida uma certa introspeção, o que é que constitui o amor "verdadeiro"? Será o amor de Anna e do Hans? Certamente que não, este é aquele que se pode chamar amor "à primeira vista" (será que existe tal coisa?). Neste caso, gostei da maneira como o apresentaram ao longo do filme e pelo modo como este só se revelou enquanto falso e interesseiro no desfecho. Todo o cenário mágico envolvido no suposto romance dos dois não deixou de ser justamente magia, ou seja, ilusão. Há muito que pode ser dito em relação à inabilidade da Anna em ver para além do que lhe aparece imediatamente à frente, que traz ao de cima a sua ingenuidade cega mas que certamente não é culpa sua. Continuando, será que é o amor entre Anna e Kristoff? De facto é algo que se aproxima do amor dito verdadeiro e "autêntico", atravessaram juntos tempestades de neve, também partilharam várias situações de aperto e isso contribuiu para que este sentimento fosse nutrido na sua relação. No entanto, não me parece o factor determinante e recorrente de todo o filme. Tal como a Madalena (a minha namorada) me tinha referido, este é dos poucos filmes da Disney em que a salvação da princesa não se dá nas mãos de um príncipe encantado. O desfecho, o final do mau estado de coisas, acaba precisamente quando Anna se coloca entre Hans e Elsa para impedir a sua morte. Todo este ato trouxe ao de cima o que constitui de facto o amor verdadeiro no filme, isto é, o amor fraternal, e com uma analogia bonita é referido como o amor capaz de descongelar corações. Outro aspeto que quero referir levemente é a da presença de Olaf ao longo do filme. O meu ponto é que existe uma certa discrepância que origina certos momentos de humor no que toca ao facto do Olaf ser um boneco de neve e precisar de um tempo favorável para sobreviver e, por outro lado, as pessoas que este acompanha quererem exatamente o oposto. Kristoff quer que tudo volte ao normal para que o seu negócio de gelo não vá à falência e Anna mais pelo bem-estar do seu reino. Esta discrepância que por vários momentos nem Olaf se apercebe parece aludir aos "sacríficios" necessários para a manutenção de amizades e relações saudáveis que trazem felicidade. Estes esforços que isoladamente seriam em vão, mas em relações mútuas e recíprocas valem bastante a pena, tanto que no desfecho e o final do inverno, Olaf não derreteu porque Elsa arranjou uma solução.

«Há pessoas por quem vale a pena derreter.»

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