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Canto do Inácio

Sex | 11.02.22

Comentário a "Animal Farm" de George Orwell

Tiago Inácio

Orwell's Animal Farm' Sticks a Bit Too Close to the Source Material | WIRED

A Quinta dos Animais e o 1984 de George Orwell são dois livros bastante citados pela direita, especialmente pelo que poderemos apelidar de "direita liberal". O uso e exemplificação da literatura de Orwell por parte deste grupo é feita sempre de modo a apresentar uma crítica ao "stalinismo", ao comunismo, ao coletivismo, por aí a fora. Na maior parte das vezes é uma argumentação carregada de pressupostos errados e de ridicularizações que distorcem o programa que procura pensar e transitar para uma diferente vida social. No seguinte texto, vou fazer o melhor para interpretar o livro à luz de uma crítica do capitalismo enquanto forma de vida cuja mercadoria toma um lugar central, que virá necessariamente acompanhado duma crítica do "socialismo realmente existente", isto é, ao marxismo vulgar que falhou em romper com os pressupostos da economia política. Eu não vou argumentar que Orwell achava exatamente isto enquanto escrevia o livro em questão, não quero estar a elaborar toda uma psicologia que procure pesquisar seu o pensamento. É claro que vale a pena referir que o autor, como se vê pelo seu relato da guerra civil, tinha claramente influências anarquistas e trotskistas e isso pode ajudar a perceber as intenções por detrás do livro. No entanto, isto não interessa para o que vou dizer aqui, esta interpretação só ganhará frescura se eu procurar confrontar a pretensa analogia dos animais e o seu "programa político" com o que deve ser um programa radical anti-capitalista que pretenda ir para além do atual estado de coisas. Não se trata duma defesa de Orwell nem de uma reapropriação do livro, só quero salientar que existe conteúdo no livro que merece ser discutido e reavaliado de modo a reformular uma crítica adequada ao capitalismo.

O primeiro ponto que quero referir está na frase "Se nos livrarmos do Homem, o produto do nosso trabalho será nosso". Imediatamente parece um objetivo bastante positivo e que certamente se reflete nos dias de hoje, na pretensão da esquerda pela taxação das grandes fortunas, pela diminuição da desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres entre outras propostas. Não me entendam mal, estas propostas são importantes e merecem o devido crédito no interior do capitalismo (tal como defendi no meu texto anterior); no entanto são propostas bastante limitadas e estão carregadas do que se pode chamar "distributismo". O problema da mais-valia ou do lucro (que não são a mesma coisa mas não consigo alongar este ponto aqui) não é o facto de pertencer ao capitalista, ao patrão, à empresa e que idealmente devia pertencer ao trabalhador, isto é, quem produziu o valor. Parece-me que o problema é o facto em si de existir uma forma de mediação social que constrange os seus atores segundo este imperativo económico de incessante auto-valorização do capital. O meu ponto é que a discussão que pressupõe logo à partida a mais-valia e se limita a disputar a questão no campo jurídico e normativo ao dizer que o produto do trabalho pertence (ou deve pertencer) ao trabalhador está logo à partida limitado, e não pretende confrontar as categorias da economia política. Um programa político de esquerda que falhe em ir para além desta luta por uma melhor e mais equitativa distribuição de lucros é uma esquerda que, por um lado, apresenta um programa que de facto procura melhorar as condições do trabalhador no interior do capitalismo; mas que, por outro lado, é um programa bastante limitado e que falha em compreender a totalidade dominante que engloba o capitalismo. Envolve obviamente a crítica da esfera da circulação, questionar os pressupostos da propriedade privada e perceber em que sentido os mercados falharam historicamente a falhar em regularem-se; mas também terá de passar por uma crítica que procure analisar a esfera de produção no seu caratér especifico histórico, isto é, que se baseie numa perspetiva que toma o trabalho e a forma-valor como forma de mediação social no seu caráter histórico.

O segundo ponto é o que refere "o Homem serve exclusivamente os seus próprios interesses" e que é uma clara analogia com a hegemonia da classe capitalista. Para mim, esta questão é uma retórica bastante inquestionada e usada frequentemente em prol desta suposta propaganda de agitação. Este ponto de partido consta que este grupo dominante defende os seus interesses "particularistas" em contraste aos interesses universais, e consequentemente impossibilitam a realização dos interesses posteriores. É óbvio que não pretendo introduzir uma falsa homogeneidade na sociedade capitalista, não defendo de todo que não existem classes ou alguma espécie de conciliação das mesmas. O meu ponto é justamente tentar perceber a maneira como estes "interesses" se constituem historicamente especialmente com a "financeirização" do capitalismo, o modo como as personificações do capital se regem por estes interesses. Parece-me que com a transição para o capitalismo, as relações de dominação adquiriram um caráter diferente e situado necessariamente nos pressupostos da troca "livre e igual" de mercadorias, ou seja, estas relações deixaram de ser diretas e adquiriram um caráter indireto e impessoal que por si só ajudaram a construir todo um sistema de dominação abstrata sem que os próprios agentes sociais se apercebessem (este é um artigo do Kurz que eu gosto sobre o assunto). Esta retórica só parece alimentar o pensamento que pressupõe a existência de uma espécie de elite global que impõe gananciosamente os seus interesses no resto da população, esta posição parece-me estar carregada da crítica imediada ao capitalismo, muitas vezes porque parece a mais "acessível" e fácil, mas que por algum motivo falha em ganhar tração. É necessário entender que os interesses da classe capitalista não entram em colisão com os de uma sociedade democrática e do progresso, mas que estes interesses "particulares" são exatamente constítuidos por esta corrente da liberdade e do progressismo. É quase como se a existência destes capitalistas na atual(!!!) vida social fosse purgável (ou como se o problema fosse substituir estes por outros sujeitos moralmente bons) e estes se encontrassem no exterior ou fossem um mero defeito ou obstáculo para a sociedade perfeita e igualitária. A minha tese é exatamente que estes agentes que assumem a personificação dos movimentos capital constituem-se enquanto tais no interior da sociedade capitalista do progresso e da liberdade. Isto irá invocar logicamente a necessidade de uma crítica imanente ao capitalismo e que compreende o capitalismo nos seus próprios termos. A demanda pelo verdadeiro universalismo iluminista, e pelos valores adjacentes a este, está logo à partida comprometida porque falha em compreender que este já está realizado no capitalismo (por mais distorcidos que estejam) e que provavelmente é necessário ir para além desta questão.

Para concluir rapidamente, o livro em si, apesar de ser uma leitura fácil e curta, não é necessariamente um livro que recomendaria para um futuro leitor de Orwell. Sinto que apresentei e reforcei sucintamente o meu argumento pela reelaboração de uma crítica imanente ao capitalismo, uma crítica que permite romper com os pressupostos da economia política. Não venho para aqui dizer que "não era verdadeiro comunismo" ou que tal e tal é "capitalismo de estado" ou qualquer outro tipo de anacronismo. O meu texto teve como principal o objetivo de desenhar um quadro geral, o caminho para um programa político que quebre com o marxismo "vulgar". Isto é, terá de vir necessariamente com a crítica da sociedade assente na produção e acumulação de mercadorias, onde estas tomam um lugar central. Tal crítica que origina um colapso da atual forma de organizar e mediar a vida social, irá certamente originar um outro modo de síntese social.

 

 

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