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Canto do Inácio

Sex | 28.01.22

Comentário do Livro "Na Colónia Penal" de Franz Kafka

Tiago Inácio

Acabei de ler este livro recentemente e é bastante curto, li numa madrugada quando não tinha nada para fazer. Apesar de não ser extenso tem bastante que se lhe diga, e sendo um livro de Kafka nunca falha em transmitir o que sempre se propôs a transmitir(-me), desde o Processo ao Castelo os sentimentos envolvidos são de ansiedade, frustração, repetição etc.

Este livro é bastante aterrador na medida em que contém descrições bastante gráficas dos danos físicos do "Aparato" algo que só me faz lembrar as várias armadilhas do "Saw". Ler tudo aquilo causa impressão e arrepios, não é um livro que recomendo certamente a alguém com imaginação muito vivída.

[isto pode ter spoilers mas por amor de deus o livro tem 20 páginas]

Não obstante, é um livro genial e que recomendo intensamente para quem de facto consegue atravessar umas 17 páginas de descrição horrenda ao longo do livro. Um dos pontos que quero relevar para o facto de eu ter gostado tanto do livro é a perspetiva que se pode tomar da obra enquanto crítica do punitivismo penal e do sistema prisional. O funcionário do "Aparato" claramente um homem que defende com toda a força a sua conceção do que é justo, sendo esta a punição através duma morte lenta, dolorosa e carregada de tortura e simbolismo. Importante referir a sua rejeição constante dos príncipios de inocência isto porque assim que são acusados são logo levados para a sua sentença. Curiosamente liga-se diretamente com a história do "Processo" onde o próprio indíviduo não sabe sequer do que está a ser acusado e não tem como se defender. Em contraste, temos o viajante e o novo comandante que não acham que as coisas devem ser bem assim e materializam aquilo a que se pode chamar da reforma penal e judiciária do aparato todo. 

O ponto mais interessante que tem de ser salientado é a sátira possibilitada através da abolição da distância entre o que é a vida efetivamente real e prática e a teoria/conceção que o Funcionário constroi pela qual procura traduzir a anterior. O que quero dizer é, o Funcionário age de acordo com os seus próprios príncipios até ao fim, até à sua conclusão lógica. Este rege-se pela máxima ética que se deve executar os injustos e de facto ele acarreta com as consequências da sua própria conceção, ao descobrir que ele próprio é injusto por mais absurdo que seja, o expoente disto terá de ser a sua autodestruição. Ironicamente, a máquina que ele aperfeiçoou ao longo de vários anos foi exatamente a mesma que produziu a sua sentença futura e que depois encarregou-se de a cumprir. Todo o livro encaminha-nos na história dum homem que morre às mãos da própria máquina que construiu. Podemos certamente, desenhar um paralelo com o surgimento histórico do capitalismo que apesar por um lado se dever à brutalidade adjacente à subsunção do trabalho pelo capital, também existe um lado invisível isto é , pela qual começamos a constituir uma totalidade económica e asbtrata por detrás das nossas costas, pelo o que o seu declínio auto-induzido vem acompanhado pela crise da forma-sujeito na contemporaneidade capitalista, facto que se reflete nos mass-shootings, ressurgimento do fascismo, entre outros.

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